domingo

Angústia-de-domingo. Estado psicológico de profundo mal-estar, caracterizado pelo latente descompasso entre corpo (com os pés ainda fincados no sábado) e mente (bombardeada pelas obrigações de segunda-feira). Desenvolve-se na medida em que o almoço dominical é digerido e que a tarde cai. Sua intensidade é variável conforme o resultado do jogo das quatro horas, se há paixão futebolística concomitante. Na sua gênese, é marcada pela negação: “já é domingo?”. ou pior: “amanhã já é segunda?”. Já o ponto crítico é distinguido por um amálgama de raiva e depressão. Até que aceita-se o inevitável – infelizmente, quase sempre a aceitação surge nas franjas do domingo, quando o dia foi fatalmente marcado pelos escombros do sábado e pelas sombras de segunda-feira.

Contudo engana-se aquele que acha que é obrigado a sofrer eternamente pela Angústia-de-domingo (também conhecida popularmente como Mal de Abravanel ou Doença de Fausto): há cura.

Para matar a angústia, mate o domingo. Ignore o suposto contrato social que te obriga a espalhar jornais pelo chão da casa, comprar frango-de-televisão-de-cachorro na padaria e levar um vinho pra casa da sogra. Vá a uma exposição, ao teatro, ao cinema, troque o futebol na tevê por uma ida ao estádio, nunca, em hipótese alguma, ouça a música do Fantástico. Enfim, trate como sábado aquele que te trata como segunda-feira.

Ontem, ministrei nova dose do tratamento: fui a um show do Geraldo Azevedo, no Sesc Pinheiros. Tenho certeza que ninguém da plateia se preocupava em que dia da semana estávamos enquanto cantávamos juntos Táxi Lunar, vibrávamos com virtuosidade de Bicho de Sete Cabeças e a Fernanda caía em prantos com Dia Branco.

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Publicado por

Lucas Verzola

Lucas Verzola nasceu em São Paulo em 1988. É autor de “São Paulo Depois de Horas” (Patuá, 2014), finalista do Prêmio SESC de Literatura 2013/2014 na categoria contos; e de “Em Conflito com a Lei – Submundos” (Reformatório, 2016), com apoio do ProAc 2015 – Governo do Estado de São Paulo, na modalidade “criação literária – prosa”. Formado em Direito pela USP, onde também cursou História, é assessor no gabinete da vice-presidência do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Anteriormente, passou pela redação da Folha de S.Paulo e pela editora Publifolha. Tem poemas e contos publicados em blogs, revistas e jornais literários (Originais Reprovados, mallarmargens, Gueto, POA2502, Carcará etc.) e integrou as antologias “Patuscada” (Patuá, 2016, Org. Eduardo Lacerda) e “Hiperconexões Vol. 3 – Sangue e Titânio” (Patuá, 2017, Org. Luiz Bras). Participa como voluntário do projeto de Clubes de Leitura para remição de pena, realizado pela Companhia das Letras em parceria com a Funap, promove oficinas e rodas de discussão de literatura e é editor, parecerista, revisor e preparador freelancer. E-mail para contato: verzola.lucas@gmail.com

  1. Deixar o relógio de lado já ajuda bastante para curar essa doença chamada angústia-de-domingo….e em hipótese alguma assista Fantástico ou Faustão…se não sair assista Netflix

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