uma mulher, uma bicicleta. duas mulheres, duas bicicletas.

Depois daquele primeiro post aqui no blog uma coisa linda aconteceu: ganhei a Madalena. Meus pais tinham pontos no cartão de crédito e me deram uma magrela de presente.

Desde o momento em que a bicicleta foi encomendada algo em mim se encheu de alegria. Eu me sentia poderosa de alguma forma. Era como se de agora em diante eu pudesse fazer o que me desse na telha. Bastava dar umas pedaladas – e suar muito – que eu estaria onde quisesse.

Eu sabia, a Madalena tinha vindo pra me ensinar algumas coisas.

Aquela caixa gigante e maravilhosa chegou no mesmo dia que eu partia pro interior, então minha liberdade teria de esperar mais alguns dias. Durante o feriado longe, tentei convencer meu irmão, meu pai e todos os homens que cruzassem o meu caminho que montassem a bicicleta e, assim, eu chegaria de viagem e a encontraria pronta para que eu pudesse desvendar todos os mistérios do mundo em cima de duas rodas.

Acontece que, cinco dias depois, eu voltei e a caixa estava intacta. Mas eu já tinha certeza, aquele era um primeiro desafio que a Madalena me propunha: vai, você tem as ferramentas e o manual de instrução – fora a internet que te ensina tudo nessa vida! Então lá fui eu: coloquei uma playlist anos 80 pra tocar e passei algumas horas montando minha bicicleta.

Tive apenas um pequeno percalço no meio do caminho: não tinha nenhuma chave allen em casa. Porém eu não me fiz de vencida – segunda lição da Madalena! – e fui até a loja de ferramentas atrás da tal da chave. Por via das dúvidas, comprei logo um jogo completo e saí orgulhosa. Eu era não só uma mulher com uma bicicleta, mas também uma mulher que monta a própria bicicleta e sabe comprar ferramentas sozinha.

Pois bem, a Madalena começava a ganhar corpo, mas os pneus ainda estavam totalmente murchos e eu tinha que conseguir uma outra coragem: ir ao posto de gasolina e encher os pneus. E assim eu fiz, e a magrela estava pronta.

Toda essa novela me fez lembrar um texto que eu tinha lido uns tempos atrás (este aqui) que contava como a bicicleta foi importante para a emancipação das mulheres. Como ela permitiu que elas se locomovessem sozinhas e se livrassem de roupas que limitavam seus movimentos etc.

Eu concordava com tudo e agora achava ainda mais lindo, porque a Madalena parecia mesmo ter me emancipado de várias ideias opressoras que tinha na cabeça sem nem mesmo perceber (que jamais seria capaz de montar uma bicicleta, por exemplo). Eu estava pronta. Pronta pra ser a dona do meu próprio caminho, libertada do trânsito dos carros e da má-educação no transporte público. Eu teria o vento batendo no rosto e poderia sentir como é tomar as ruas de verdade.

Hoje, resolvi fazer meu primeiro passeio e escolhi um caminho calmo, afinal, eu tinha que sentir se todas as peças estavam certas, se os parafusos estavam presos corretamente etc. Logo na primeira quadra, percebi o banco um pouco solto e resolvi que era melhor não me arriscar pedalando entre os carros até a bicicletaria. Preferi levá-la na mão até lá e , depois de tanto aprender, já sabia: eu devia era desfilar orgulhosa pela rua. Eu tinha montado a bicicleta sozinha, ela estava inteira e eu, apenas por segurança, levava ela na mão até a oficina para um check-up (o que todos os sites especializados tinham recomendado como primeira medida antes de começar a pedalar).

Até a metade do trajeto, tudo estava mesmo lindo. Eu pensava no tempo na vida, em como a Madalena era bonita e como dali a pouco tudo estaria resolvido. Afinal, ninguém nunca tinha dito que a luta seria fácil. E, então, veio o golpe: “quer uma carona, gatinha?”, “ei, linda, quer que eu carregue a bike pra você?”.

Veja bem, todas as cantadas que me deram faziam menção à bicicleta. Eu era uma mulher carregando uma bicicleta e isso fazia de mim um alvo claro para o machismo e para a opressão. Fiquei triste, muito triste. E assim continuei meu caminho, desistindo até de levar a bicicleta à oficina hoje mesmo, e segui pra casa arrasada.

Quando cheguei ao prédio, o elevador demorou o que pareceram horas pra chegar e dele saíram dois homens que riram muito quando viram que eu estava de bicicleta. Eu estava pronta pra me render quando, atrás deles, vi uma roda e, do elevador, saiu outra bicicleta, cuja dona era uma mulher forte e confiante.

Nos olhamos e ela sorriu: nós não estamos sozinhas nunca. Obrigada, companheiras.

Obrigada, Madalena.

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3 thoughts on “uma mulher, uma bicicleta. duas mulheres, duas bicicletas.”

  1. Não estamos sozinhas e nunca estaremos!!!!Dessa luta eu não desisto!!!Sou ciclista, minha bike é meu meio de transporte e lazer com ela faço tudo, tudo mesmo…inclusive impor o meu espaço e o meu direito de ir e vir!!

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