de cabeceira – nº 1

Depois de um longo e tenebroso inverno, cá estamos. Eu sei que ninguém ficou dando F5 avidamente, esperando que tivéssemos atualizado a página com o relato de alguma super aventura, mas me sinto na obrigação de fazer uma breve explicação antes de ir ao ponto central do post.

Acontece que depois da última publicação, em que o Lucas fez uma linda análise sobre a peça da Velha Companhia, fiquei um pouco sem inspiração. Não achei que nenhum dos programas que a gente fez foi tão interessante a ponto de valer a pena ser contado. Então, semana passada, preparei meu chazinho diário e fiquei olhando para o criado mudo. Até tirei uma foto para colocar no Instagram, porque a imagem dos livros e da caneca sintetizava bem meu estado de espírito. Esta sou eu: não troco o aconchego de um chá quente e boas histórias por nada.

E foi assim que veio a ideia para uma nova seção do blog. “De cabeceira” será um espaço para a gente falar um pouquinho do que estamos lendo, já que esta é uma parte muito importante do nosso dia-a-dia. Não pretendemos fazer críticas sobre os livros, mas apenas contar um pouco das nossas impressões.

Explicações feitas, vamos lá. 

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Na foto do post, meu criado mudo na última semana. Nele estão dois livros, uma zine, meu chá e o cartão de um bar. Vou falar só de um dos livros, mas se alguém ficar curioso sobre as demais coisas é só comentar aí e vamos trocando figurinhas.

Pois bem, ontem terminei de ler “Meus documentos”, último livro do chileno Alejandro Zambra, recém-lançado no Brasil pela Cosac Naify. Sou fã do autor desde que li “Bonsai” e, desde então, li seus outros dois romances publicados no país pela mesma editora.

“Meus documentos” é um livro composto de onze contos, com temáticas das mais variadas, que compreendem o simples ato de escrever até a vida chilena após a ditadura de Pinochet.

O que mais me atrai em Zambra é o domínio que ele tem da linguagem. Seus textos são fluidos, nenhuma vírgula parece fora do lugar. Ler suas histórias é como estar sentando num café ouvindo os próprios personagens contando o que aconteceu e você pode levantar e sair andando a qualquer momento, porque as histórias não se encerram com o ponto final. A naturalidade de seus relatos faz com que o leitor seja também protagonista, tanto que, a meu ver, nenhuma das histórias materializadas em seus contos pareceram concluídas aos meus olhos. Mesmo após lê-los, eu podia ficar sentada e continuá-los na minha cabeça, dando o rumo que bem entendesse.

Além disso, não posso deixar de dizer que é fácil se identificar com as histórias de Zambra, tanto as deste livro como a de seus romances. O Brasil e o Chile têm pontos semelhantes em suas histórias e o autor sabe como ressaltar a importância desses acontecimentos na rotina e na cultura de um país. No conto “Camilo”, por exemplo, Zambra trata da ditadura militar e do futebol e de como nos moldaram, afetaram nossos dias.

Enfim, adorei “Meus documentos” e recomendo, bem como os outros três livros do autor publicados no Brasil, em especial “Formas de voltar para casa”, meu preferido.

foi bonita a festa, pá!

Nós temos uma turma. Se tivéssemos algum talento pra cometer crimes, seríamos uma gangue. Se fôssemos equilibristas, seríamos uma trupe. Mas não, somos uma turma, unidos pelo gosto pela boa comida e boa bebida.

O fato de termos uma turma não quer dizer que não amemos tanto nossos outros amigos, mas só que temos alguns amigos que topam qualquer coisa a qualquer hora (menos o Zé, que faz parte da turma, mas insistimos em encontrá-lo por amor incondicional mesmo, ainda que tenhamos que marcar com dias e dias de antecedência qualquer coisa com ele).

Então, a nossa turma é assim: não perdemos oportunidade de comemorar nada, nem que seja alguma desgraça tragicômica que tenha acontecido com algum de nós. E assim, por todos esses anos, colecionamos algumas tradições (ou manias) e uma delas é a comemoração da Revolução dos Cravos.

Nossa turma tem dois portugueses. Todos os membros amam bacalhau e vinho do porto. Apoiamos revoluções e odiamos qualquer forma de autoritarismo, de modo que a Revolução dos Cravos foi a nossa primeira eleita para ser devidamente brindada, há dois anos.

A tradição é a seguinte: o restaurante é eleito com meses de antecedência, os cravos são comprados no dia (um para cada, mais 3 de sobra – um para a cantora de fado, outro para o dono do restaurante e um, digamos assim, bônus, que é distribuído para alguém ao longo da noite por algum motivo especial). No dia, o ideal é que os estômagos sejam poupados nas refeições anteriores para que estejamos com uma fome pantagruélica no jantar.

Este ano, repetimos a dose. Reservamos a mesa no nosso restaurante português favorito em dia de fado, compramos as flores, separamos a garrafa de vinho do porto e ensaiamos alguns fados, além de ouvir repetidas vezes “Tanto Mar”, do Chico.

Depois de nos entupirmos com alheiras, vinho branco e bacalhau, a luz diminuiu e surgiram duas portuguesas sexagenárias, cantoras de fado de altíssima qualidade.Oferecemos os cravos e elas se emocionaram. Uma, inclusive, anunciou ao restaurante inteiro que no dia seguinte era uma data muito importante e começou a cantar a Grândola (o hino da Revolução). Batemos palmas, realizados, e quase beijamos os pés dela.

Superamos, assim, um dos nossos maiores traumas: na primeira celebração, o cantor – um brasileiro que parecia o Dudu Nobre e forçava o sotaque português de maneira caricatural – confundiu nosso cravo com uma rosa e ainda desdenhou dizendo “se eu, ao menos, fosse um cantor de tango!”.

É, no cravos for you, baby. Foi bonita a festa, pá!

Que venha o 14 de julho! O 9 de novembro!

Viva a revolução!

uma mulher, uma bicicleta. duas mulheres, duas bicicletas.

Depois daquele primeiro post aqui no blog uma coisa linda aconteceu: ganhei a Madalena. Meus pais tinham pontos no cartão de crédito e me deram uma magrela de presente.

Desde o momento em que a bicicleta foi encomendada algo em mim se encheu de alegria. Eu me sentia poderosa de alguma forma. Era como se de agora em diante eu pudesse fazer o que me desse na telha. Bastava dar umas pedaladas – e suar muito – que eu estaria onde quisesse.

Eu sabia, a Madalena tinha vindo pra me ensinar algumas coisas.

Aquela caixa gigante e maravilhosa chegou no mesmo dia que eu partia pro interior, então minha liberdade teria de esperar mais alguns dias. Durante o feriado longe, tentei convencer meu irmão, meu pai e todos os homens que cruzassem o meu caminho que montassem a bicicleta e, assim, eu chegaria de viagem e a encontraria pronta para que eu pudesse desvendar todos os mistérios do mundo em cima de duas rodas.

Acontece que, cinco dias depois, eu voltei e a caixa estava intacta. Mas eu já tinha certeza, aquele era um primeiro desafio que a Madalena me propunha: vai, você tem as ferramentas e o manual de instrução – fora a internet que te ensina tudo nessa vida! Então lá fui eu: coloquei uma playlist anos 80 pra tocar e passei algumas horas montando minha bicicleta.

Tive apenas um pequeno percalço no meio do caminho: não tinha nenhuma chave allen em casa. Porém eu não me fiz de vencida – segunda lição da Madalena! – e fui até a loja de ferramentas atrás da tal da chave. Por via das dúvidas, comprei logo um jogo completo e saí orgulhosa. Eu era não só uma mulher com uma bicicleta, mas também uma mulher que monta a própria bicicleta e sabe comprar ferramentas sozinha.

Pois bem, a Madalena começava a ganhar corpo, mas os pneus ainda estavam totalmente murchos e eu tinha que conseguir uma outra coragem: ir ao posto de gasolina e encher os pneus. E assim eu fiz, e a magrela estava pronta.

Toda essa novela me fez lembrar um texto que eu tinha lido uns tempos atrás (este aqui) que contava como a bicicleta foi importante para a emancipação das mulheres. Como ela permitiu que elas se locomovessem sozinhas e se livrassem de roupas que limitavam seus movimentos etc.

Eu concordava com tudo e agora achava ainda mais lindo, porque a Madalena parecia mesmo ter me emancipado de várias ideias opressoras que tinha na cabeça sem nem mesmo perceber (que jamais seria capaz de montar uma bicicleta, por exemplo). Eu estava pronta. Pronta pra ser a dona do meu próprio caminho, libertada do trânsito dos carros e da má-educação no transporte público. Eu teria o vento batendo no rosto e poderia sentir como é tomar as ruas de verdade.

Hoje, resolvi fazer meu primeiro passeio e escolhi um caminho calmo, afinal, eu tinha que sentir se todas as peças estavam certas, se os parafusos estavam presos corretamente etc. Logo na primeira quadra, percebi o banco um pouco solto e resolvi que era melhor não me arriscar pedalando entre os carros até a bicicletaria. Preferi levá-la na mão até lá e , depois de tanto aprender, já sabia: eu devia era desfilar orgulhosa pela rua. Eu tinha montado a bicicleta sozinha, ela estava inteira e eu, apenas por segurança, levava ela na mão até a oficina para um check-up (o que todos os sites especializados tinham recomendado como primeira medida antes de começar a pedalar).

Até a metade do trajeto, tudo estava mesmo lindo. Eu pensava no tempo na vida, em como a Madalena era bonita e como dali a pouco tudo estaria resolvido. Afinal, ninguém nunca tinha dito que a luta seria fácil. E, então, veio o golpe: “quer uma carona, gatinha?”, “ei, linda, quer que eu carregue a bike pra você?”.

Veja bem, todas as cantadas que me deram faziam menção à bicicleta. Eu era uma mulher carregando uma bicicleta e isso fazia de mim um alvo claro para o machismo e para a opressão. Fiquei triste, muito triste. E assim continuei meu caminho, desistindo até de levar a bicicleta à oficina hoje mesmo, e segui pra casa arrasada.

Quando cheguei ao prédio, o elevador demorou o que pareceram horas pra chegar e dele saíram dois homens que riram muito quando viram que eu estava de bicicleta. Eu estava pronta pra me render quando, atrás deles, vi uma roda e, do elevador, saiu outra bicicleta, cuja dona era uma mulher forte e confiante.

Nos olhamos e ela sorriu: nós não estamos sozinhas nunca. Obrigada, companheiras.

Obrigada, Madalena.

pra não dizer que não falei do fim de semana

Este final de semana tivemos uma surpresa boa: o Leo, irmão do Lucas, veio de Minas para assistir a uma peça de teatro na sexta-feira e acabou conseguindo estender um pouco a passagem por aqui. Então, assim que soubemos, começamos a planejar alguns programas pra fazer com ele.

O primeiro escolhido, eleito por unanimidade, foi o almoço de sábado no Rancho Nordestino. O Rancho é quase um point da nossa turma (somos todos ogros e pobres, fazer o quê?) e fica no Bixiga, na rua Manoel Dutra, 498, esquina com a rua Santo Antônio. Salvo poucas exceções, sempre pedimos os mesmos pratos. Pra começar: bolinho de mandioca com carne seca. Ele é servido com uma geleia de pimenta que meu senhor! Inexplicável. Depois, dependendo do número pessoas, pedimos um baião de dois e, se estamos em mais gente, uma paçoca de carne de sol. Para maior prazer, é necessário regar os pratos com muita manteiga de garrafa. É, caros amigos, eu bem avisei que somos ogros.

No mais passamos a tarde vendo um filme tosco e falando abobrinhas, tudo isso depois de tomar um delicioso gelato. Porém, 18h30 do sábado é meio que a hora da verdade: você precisa decidir se vai até o jantar ou se ele vai até você. Eu confesso que sou uma pessoa muito caseira e, quase sempre, minha opção será ficar em casa, com um abajur ligado e uma mantinha. Mas, como eu disse, o Leo estava aqui e eu estava disposta a fazê-lo se divertir um pouco em SP. Decidido que sairíamos, começou a tortura: decidir o que comer. O Lucas propôs indiano, mas eu não sou muito dos temperos fortes e acabei vetando. A discussão durou mais uns muitos minutos até que decidimos ir ao Urbanoide, um espaço de food trucks na rua Augusta, 1291. Ficamos surpresos com a variedade do lugar: trailers de comida cubana, peruana, italiana, colombiana, tailandesa etc. As opções eram inúmeras, mas nós três decidimos comer no Aim Thai. Eu e o Lucas pedimos Paad Thai (R$ 25), enquanto o Leo optou pelo Khao op sapparod, um arroz agridoce frito com abacaxi, curry, amendoim e frango ou filet migon (R$ 20).

A escolha não podia ter sido melhor: o Urbanoide é um lugar que você pode ir comer com os amigos e cada um pode escolher o que quiser, mas sem que vocês precisem se enclausurar numa praça de alimentação de um shopping (que, aliás, a gente odeia e só vai por pura praticidade quando precisamos fazer um monte de coisa em pouco tempo e não há mais nenhuma outra opção).

No passeio, uma coisa que nos deixou curiosos é que, com tanta variedade e com tanta culinária diferente, os trailers mais cheios eram os de hot dog, hambúrguer e temaki, sendo que alguns dos mais pitorescos estavam literalmente vazios. Tanta falta de criatividade e ousadia só nos fez pensar que não é à toa que elegemos o congresso mais conservador dos últimos tempos… Bom, nós, que somos meio intelectuais, meio de esquerda, não vemos a hora de voltar para experimentar os pratos cubanos.

o triste fim dos armarinhos

Nessa virada de ano, alguma força cósmica deve ter se combinado com um alinhamento inusitado dos planetas e algo muito louco rolou comigo. Acontece que, nestes três primeiros meses do ano, muita coisa mudou no meu cotidiano. Comecei 2015 resgatando dois hábitos perdidos na infância: a bicicleta e o bordado. A bicicleta está prestes a se tornar um meio de transporte definitivo pra mim (tô pesquisando qual a melhor magrela pra minha rotina) e o bordado – pasmem! – tem até me rendido uma graninha.

Faz mais ou menos um mês que fui até a casa da minha tia Nenê (quão legal é ter uma tia Nenê?) e, despretensiosamente, perguntei se ela sabia fazer um determinado ponto de bordado. Eu jurava que o tal ponto era feito na máquina e que eu jamais poderia fazer igual.  Dois minutos depois, ela tinha me ensinado tudo e eu fazia o meu primeiro mini-bordado em ponto haste.

Então, o tal alinhamento dos planetas aconteceu novamente e semana passada tive duas encomendas de bordado. Com meu estoque de bastidores esgotados, tive que correr à 25 de março atrás de mais alguns exemplares. Vejam bem, deixa eu fazer uma ressalva importante, eu odeio, odeio, odeio desesperadamente a 25 de março. Todos os músculos do meu corpo odeiam a 25. Eu não gosto de muvuca e estava disposta a pagar mais caro nos materiais, se eu não precisasse me deslocar até lá. No entanto o que se passa é o seguinte: não existem mais armarinhos de bairro.

Quando eu era criança, todo bairro tinha pelo menos um armarinho. Como minha avó sempre costurou e minha tia é uma bordadeira de mão cheia, eu tenho muitas lembranças de ir comprar linhas e lãs de todos os tipos. Eu juro que dei uma visita bem longa por todo o meu antigo bairro (via Google Street View) para ter certeza de que o velho armarinho não existia mais (ele agora é uma loja de artigos de cozinha). Dei uma varredura pelas internets, perambulei pelo meu novo bairro e nada. Os armarinhos são uma espécie extinta! Essa conclusão me deixou muito muito triste.

Mas depois de muito matutar, acho que não posso me furtar a responsabilidade pela aniquilação dos armarinhos. Fiquei anos e anos sem tocar em uma agulha, sem olhar um gráfico de ponto cruz, sem comprar um trabalho manual e ficar refletindo em quanto tempo e carinho alguém deve ter despendido para fazer aquilo. É, caros amigos, os armarinhos estão mortos, mas pretendo mantê-los bem vivos na minha memória. Mais uma daquelas saudades gostosas que vamos compartilhar nos próximos almoços em família.

Por via das dúvidas, semana que vem vou passar na casa da tia Nenê e ver se minha antiga Caloizinha não está lá empoeirada, mas pronta para algumas pedaladas.