domingo

Angústia-de-domingo. Estado psicológico de profundo mal-estar, caracterizado pelo latente descompasso entre corpo (com os pés ainda fincados no sábado) e mente (bombardeada pelas obrigações de segunda-feira). Desenvolve-se na medida em que o almoço dominical é digerido e que a tarde cai. Sua intensidade é variável conforme o resultado do jogo das quatro horas, se há paixão futebolística concomitante. Na sua gênese, é marcada pela negação: “já é domingo?”. ou pior: “amanhã já é segunda?”. Já o ponto crítico é distinguido por um amálgama de raiva e depressão. Até que aceita-se o inevitável – infelizmente, quase sempre a aceitação surge nas franjas do domingo, quando o dia foi fatalmente marcado pelos escombros do sábado e pelas sombras de segunda-feira.

Contudo engana-se aquele que acha que é obrigado a sofrer eternamente pela Angústia-de-domingo (também conhecida popularmente como Mal de Abravanel ou Doença de Fausto): há cura.

Para matar a angústia, mate o domingo. Ignore o suposto contrato social que te obriga a espalhar jornais pelo chão da casa, comprar frango-de-televisão-de-cachorro na padaria e levar um vinho pra casa da sogra. Vá a uma exposição, ao teatro, ao cinema, troque o futebol na tevê por uma ida ao estádio, nunca, em hipótese alguma, ouça a música do Fantástico. Enfim, trate como sábado aquele que te trata como segunda-feira.

Ontem, ministrei nova dose do tratamento: fui a um show do Geraldo Azevedo, no Sesc Pinheiros. Tenho certeza que ninguém da plateia se preocupava em que dia da semana estávamos enquanto cantávamos juntos Táxi Lunar, vibrávamos com virtuosidade de Bicho de Sete Cabeças e a Fernanda caía em prantos com Dia Branco.

o triste fim dos armarinhos

Nessa virada de ano, alguma força cósmica deve ter se combinado com um alinhamento inusitado dos planetas e algo muito louco rolou comigo. Acontece que, nestes três primeiros meses do ano, muita coisa mudou no meu cotidiano. Comecei 2015 resgatando dois hábitos perdidos na infância: a bicicleta e o bordado. A bicicleta está prestes a se tornar um meio de transporte definitivo pra mim (tô pesquisando qual a melhor magrela pra minha rotina) e o bordado – pasmem! – tem até me rendido uma graninha.

Faz mais ou menos um mês que fui até a casa da minha tia Nenê (quão legal é ter uma tia Nenê?) e, despretensiosamente, perguntei se ela sabia fazer um determinado ponto de bordado. Eu jurava que o tal ponto era feito na máquina e que eu jamais poderia fazer igual.  Dois minutos depois, ela tinha me ensinado tudo e eu fazia o meu primeiro mini-bordado em ponto haste.

Então, o tal alinhamento dos planetas aconteceu novamente e semana passada tive duas encomendas de bordado. Com meu estoque de bastidores esgotados, tive que correr à 25 de março atrás de mais alguns exemplares. Vejam bem, deixa eu fazer uma ressalva importante, eu odeio, odeio, odeio desesperadamente a 25 de março. Todos os músculos do meu corpo odeiam a 25. Eu não gosto de muvuca e estava disposta a pagar mais caro nos materiais, se eu não precisasse me deslocar até lá. No entanto o que se passa é o seguinte: não existem mais armarinhos de bairro.

Quando eu era criança, todo bairro tinha pelo menos um armarinho. Como minha avó sempre costurou e minha tia é uma bordadeira de mão cheia, eu tenho muitas lembranças de ir comprar linhas e lãs de todos os tipos. Eu juro que dei uma visita bem longa por todo o meu antigo bairro (via Google Street View) para ter certeza de que o velho armarinho não existia mais (ele agora é uma loja de artigos de cozinha). Dei uma varredura pelas internets, perambulei pelo meu novo bairro e nada. Os armarinhos são uma espécie extinta! Essa conclusão me deixou muito muito triste.

Mas depois de muito matutar, acho que não posso me furtar a responsabilidade pela aniquilação dos armarinhos. Fiquei anos e anos sem tocar em uma agulha, sem olhar um gráfico de ponto cruz, sem comprar um trabalho manual e ficar refletindo em quanto tempo e carinho alguém deve ter despendido para fazer aquilo. É, caros amigos, os armarinhos estão mortos, mas pretendo mantê-los bem vivos na minha memória. Mais uma daquelas saudades gostosas que vamos compartilhar nos próximos almoços em família.

Por via das dúvidas, semana que vem vou passar na casa da tia Nenê e ver se minha antiga Caloizinha não está lá empoeirada, mas pronta para algumas pedaladas.

um blog em pleno 2015

Pois é, cá estamos: primeiro post de um blog que ficou cozinhando na cabeça durante uns meses até nascer de vez. Criar um blog é voltar aos anos 2000? Nós já estamos mais perto dos 30 anos que dos 20 e resolvemos readquirir hábitos dos 15?

Não é bem assim…

Lógico que a caminhada por um blog que não seja temático (como são, por exemplo, os de culinária, de moda, de resenhas literárias, de crítica cinematográfica etc.) dificilmente escapa da faceta de diário, que remete àqueles anos da adolescência, preenchidos por discos do Oasis e corações partidos. Contudo ter quase o dobro da idade que tínhamos quando ouvimos pela primeira vez Stop Crying Your Heart Out pensando nele/a é fundamental para que a nova trilha seja um pouco mais interessante, e, dessa vez – esperamos! – também para outras pessoas além dos autores dos futuros posts.

Uma diferença fundamental é a companhia. Não existe mais aquele Lucas Verzola de cabelo comprido, revirando a internet atrás de bootlegs de rock progressivo e teorias malucas que explicavam, cena a cena, 2001 – Uma Odisséia no Espaço. Tampouco a Fernanda Arellano que, well, não vamos queimar o filme logo no primeiro post (and there were dark times, my friends). Acontece que depois de muito perambular por aí, esses dois se ajuntaram e seguem de mãos dadas por uma vidinha gostosa, cheia de livros, fotos, filmes, bordados, viagens, jantares, bons drinques, perrengues e, em breve, um cachorro.

E é um pouco dessa parceria, que nos guia mesmo nos momentos em que escolhemos seguir só, que pretendemos compartilhar. Torcendo sempre para que vocês também aproveitem a viagem e sintam conosco como é estar Pra lá de Pasárgada.