o silêncio que fica quando a palavra passa

Escolher o vácuo.

Trancar-se em casa noite e dia. Exercer um ofício tão confortável quanto inútil. Apaixonar-se por um ausente e manter, por anos, acesa uma frágil centelha de esperança em encontrá-lo – nunca viva o suficiente para que o encontro seja tangível nem fraca o bastante para que sentido da busca esmoreça.

Alienar-se.

Na medida em que Valéria mais se esconde dentro de suas próprias frustrações, uma fotografia de sua vida vai se revelando ao público que assiste ao novo espetáculo da Velha Companhia, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, Bom Retiro.

Com texto de José Sanchis Sinisterra, adaptação feita pelo grupo e direção de Kiko Marques, Valéria e os Pássaros é a primeira montagem da Velha Companhia desde a premiadíssima Cais ou Da Indiferença das Embarcações.

Alejandra Sampaio atua como a protagonista, que empresta seu nome ao título da peça, uma moça que parece ter planejado cada passo de sua vida desde menina – do por quem se apaixonar até a profissão – de maneira a evitar ou postergar todo e qualquer sofrimento.

Valéria é tradutora de folhetos de viagem para o esperanto. Os três núcleos – tradutora, viagem, esperanto – são importantes como um todo para apresentar a personalidade da personagem na superfície – alguém com tão peculiar ofício não precisa se preocupar com concorrência alguma no mercado de trabalho, por exemplo –, mas, se pegos individualmente, são fundamentais para revelar a sua complexidade.

Ela é tradutora, ou seja, altera o código das mensagens em outro, mantendo o seu conteúdo intacto. Assim, ela nada cria nem nada transforma. O objeto da tradução são folhetos de viagens, que permitem que Valéria conheça o mundo sem precisar sair de casa. O idioma para qual os textos são vertidos é o esperanto, uma língua artificial, de baixa abrangência, que não está contida em cultura alguma. Resumindo: mais do que alguém que escolheu uma profissão confortável, Valéria trabalha com a experiência de outras pessoas, já pasteurizadas em folhetos de viagem, modificando apenas o seu código para outro, que, enquanto idioma, não é nada além de conjunto de regras gramaticais lógicas, não sendo elemento cultural natural da vida de nenhuma pessoa.

Mas Valéria não é só isso: quando o sol se põe, ela limpa a mesa com as tralhas da tradução e começa sessões mediúnicas para tentar entrar em contato com Telmo, seu grande amor há muito tempo morto, um sujeito mais velho, amigo de seus pais, que ela conhecera quando era muito menina e reuniões eram frequentes na sua casa. E qual a função de um médium que não a de traduzir experiências de outras pessoas que surgem como sinais do além?

Eis a condenação que Valéria se impõe: isolar-se em casa, conhecer o mundo – e o além-mundo – pelos olhos de outras pessoas, não experimentar nada por conta própria, amar alguém intangível.

Alienar-se.

A alienação é o conceito-chave da peça.

Quanto mais os espíritos que surgem nas sessões mediúnicas revelam – e uma imagem de uma ditadura militar latino-americana, um regime autoritário inominado que perseguiu os pais de Valéria e seus amigos, se forma ao público –, menos Valéria quer saber. Ela irrita-se, confessa que todas as escolhas que fez deveriam levá-la a uma situação confortável, mas que agora a estão fazendo sofrer.

A metáfora visual escolhida para representar os mortos na peça é a cadeira de rodas. Sempre que voltam do além, os espíritos não mais caminham. Não é aleatória: Valéria, quando jovem, foi patinar com Telmo e quebrou uma perna, ficando meses sem poder por os pés no chão. O infortúnio a proporcionou os melhores momentos de sua vida, quando Telmo a visitava todos os dias, pouco antes da militância os afastarem definitivamente.

Quando Valéria finalmente consegue contato com Telmo no além, surge no palco aquela mesma cadeira de rodas. E, numa epifania, Valéria nela sobe.

E vai.

Enquanto seus antigos mortos foram levados à vala comum pelo autoritarismo, Valéria nela se atirou por vontade própria. A alienação, própria ou imposta, leva sempre ao mesmo destino.

Em determinado momento da peça, Valéria reclama a Telmo que a ligação que tinham estava fraca como uma palavra. Ele a corrige: menos que uma palavra, o que os unia era o silêncio que fica quando a palavra passa.

Serviço

VALÉRIA E OS PÁSSAROS
Oficina Cultural Oswald de Andrade
Rua Três Rios 363 – Bom Retiro
Telefone: (11) 3221-5558
Segundas e Terças às 20h
Entrada Franca (50 lugares – retirar senha 1 hora antes)
Duração: 100 minutos
Recomendação: 12 anos
Temporada: de 27 de Abril a 21 de Julho

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