o triste fim dos armarinhos

Nessa virada de ano, alguma força cósmica deve ter se combinado com um alinhamento inusitado dos planetas e algo muito louco rolou comigo. Acontece que, nestes três primeiros meses do ano, muita coisa mudou no meu cotidiano. Comecei 2015 resgatando dois hábitos perdidos na infância: a bicicleta e o bordado. A bicicleta está prestes a se tornar um meio de transporte definitivo pra mim (tô pesquisando qual a melhor magrela pra minha rotina) e o bordado – pasmem! – tem até me rendido uma graninha.

Faz mais ou menos um mês que fui até a casa da minha tia Nenê (quão legal é ter uma tia Nenê?) e, despretensiosamente, perguntei se ela sabia fazer um determinado ponto de bordado. Eu jurava que o tal ponto era feito na máquina e que eu jamais poderia fazer igual.  Dois minutos depois, ela tinha me ensinado tudo e eu fazia o meu primeiro mini-bordado em ponto haste.

Então, o tal alinhamento dos planetas aconteceu novamente e semana passada tive duas encomendas de bordado. Com meu estoque de bastidores esgotados, tive que correr à 25 de março atrás de mais alguns exemplares. Vejam bem, deixa eu fazer uma ressalva importante, eu odeio, odeio, odeio desesperadamente a 25 de março. Todos os músculos do meu corpo odeiam a 25. Eu não gosto de muvuca e estava disposta a pagar mais caro nos materiais, se eu não precisasse me deslocar até lá. No entanto o que se passa é o seguinte: não existem mais armarinhos de bairro.

Quando eu era criança, todo bairro tinha pelo menos um armarinho. Como minha avó sempre costurou e minha tia é uma bordadeira de mão cheia, eu tenho muitas lembranças de ir comprar linhas e lãs de todos os tipos. Eu juro que dei uma visita bem longa por todo o meu antigo bairro (via Google Street View) para ter certeza de que o velho armarinho não existia mais (ele agora é uma loja de artigos de cozinha). Dei uma varredura pelas internets, perambulei pelo meu novo bairro e nada. Os armarinhos são uma espécie extinta! Essa conclusão me deixou muito muito triste.

Mas depois de muito matutar, acho que não posso me furtar a responsabilidade pela aniquilação dos armarinhos. Fiquei anos e anos sem tocar em uma agulha, sem olhar um gráfico de ponto cruz, sem comprar um trabalho manual e ficar refletindo em quanto tempo e carinho alguém deve ter despendido para fazer aquilo. É, caros amigos, os armarinhos estão mortos, mas pretendo mantê-los bem vivos na minha memória. Mais uma daquelas saudades gostosas que vamos compartilhar nos próximos almoços em família.

Por via das dúvidas, semana que vem vou passar na casa da tia Nenê e ver se minha antiga Caloizinha não está lá empoeirada, mas pronta para algumas pedaladas.