domingo

Angústia-de-domingo. Estado psicológico de profundo mal-estar, caracterizado pelo latente descompasso entre corpo (com os pés ainda fincados no sábado) e mente (bombardeada pelas obrigações de segunda-feira). Desenvolve-se na medida em que o almoço dominical é digerido e que a tarde cai. Sua intensidade é variável conforme o resultado do jogo das quatro horas, se há paixão futebolística concomitante. Na sua gênese, é marcada pela negação: “já é domingo?”. ou pior: “amanhã já é segunda?”. Já o ponto crítico é distinguido por um amálgama de raiva e depressão. Até que aceita-se o inevitável – infelizmente, quase sempre a aceitação surge nas franjas do domingo, quando o dia foi fatalmente marcado pelos escombros do sábado e pelas sombras de segunda-feira.

Contudo engana-se aquele que acha que é obrigado a sofrer eternamente pela Angústia-de-domingo (também conhecida popularmente como Mal de Abravanel ou Doença de Fausto): há cura.

Para matar a angústia, mate o domingo. Ignore o suposto contrato social que te obriga a espalhar jornais pelo chão da casa, comprar frango-de-televisão-de-cachorro na padaria e levar um vinho pra casa da sogra. Vá a uma exposição, ao teatro, ao cinema, troque o futebol na tevê por uma ida ao estádio, nunca, em hipótese alguma, ouça a música do Fantástico. Enfim, trate como sábado aquele que te trata como segunda-feira.

Ontem, ministrei nova dose do tratamento: fui a um show do Geraldo Azevedo, no Sesc Pinheiros. Tenho certeza que ninguém da plateia se preocupava em que dia da semana estávamos enquanto cantávamos juntos Táxi Lunar, vibrávamos com virtuosidade de Bicho de Sete Cabeças e a Fernanda caía em prantos com Dia Branco.