ocupe-se de hilda hilst. mas pergunte pelo programa.

Está rolando no Itaú Cultural a 22ª edição do programa Ocupação, desta vez homenageando a escritora Hilda Hilst (1930-2004), fundamental para cena da literatura brasileira da segunda metade do século XX , ainda que muitas vezes tratada como intangível pelo público e pela crítica.

Acompanho o projeto desde 2009, quando a bola da vez era Paulo Leminski e o térreo do prédio moderninho na Avenida Paulista foi ocupado por haicais, vídeos experimentais e fotos que revelavam a intimidade do poeta curitibano. O espaço era perfeito para o objetivo. Pequenos poemas, instantâneas e gravações curtas tinham, formalmente, o exato tamanho para que a exposição pudesse ser apreciada um pouco de cada vez, sem que se esvaíssem a vitalidade e a intensidade típicas da obra de Leminski.

Com Hilda, muito mais densa e complexa, foi diferente. A autora, que não poucas vezes precisa ser lida e relida antes de se extrair a seiva de sua obra, não parece combinar com o espaço que a ela foi dedicado. Os diversos eixos temáticos espalhados com pouca lógica aparente e pobre indicação inevitavelmente confundem o público. “Ah, acho que esse é o espaço Qadós.” “Não, é o Com os meus olhos de cão.” foi um diálogo recorrente entre os visitantes que, felizmente, lotavam o salão num sábado chuvoso.

Mesmo achando que o teor da obra hilstiana – que, mais uma vez, demanda calma, preparação, um bom chá e uma poltrona confortável – não dialogou 100% com ambiente, fiquei muito satisfeito com possibilidade de ter contato com fotografias e originais de Hilda Hilst, bem como com rascunhos, provas de livros, as tentativas de definir um título, a preparação para uma entrevista com o companheiro Alcino Leite Neto, com quem tive a honra de trabalhar na Folha, e um calendário sensacional criado por um amigo da autora com o objetivo de mapear os ciclos físico, emocional e intelectual de Hilda.

Contudo só aproveitei o máximo da exposição quando questionei os monitores sobre a existência de folheto, programa ou similar sobre o evento. Existia! Existe! E é uma linda revista, com 56 páginas, lombada quadrada, arte finíssima e textos críticos e didáticos. Mas ficava longe das nossas mãos, dentro de uma gaveta na baia dos funcionários.

Achei o fim da picada que o folheto existisse, mas que houvesse um controle semirrígido para chegarmos a ele. Até compreendo a lógica em conter o acesso do público a produtos limitados: sem o controle, muita gente abraçaria a revista e a levaria para casa sem nem abri-la; com ele, os realmente interessados, ainda que tivessem que procurar, seriam premiados. Só que essa lógica não deve ser aplicada ao acesso à cultura, sob pena de criar filtros que mais dificultam do que ajudam. Se a curadoria achou por bem que um programa fosse editado e distribuído, que isso ocorra sem grandes dramas. Quer fazer um folheto caprichado e gratuito? Deixe à disposição do público. Não quer gastar grana com isso? Faça um mais simples. O que não dá é pra concordar com a solução do Itaú, que promove a mostra cultural sem desvelar seu conteúdo na íntegra.

O que me resta é indicar demais a exposição. E aconselhar mais ainda que perguntem pela publicação. Porque vale a pena e para que, quem sabe, não resolvam deixá-lo onde deve ficar: aos olhos do público.

Serviço: Ocupação Hilda Hilst (até 21/04)
Endereço: Av. Paulista, 149, Cerqueira César (Estação Brigadeiro do Metrô)
Telefone: 2168-1716
Terça a Sexta-feira, das 9h às 20h; Sábado e Domingo, das 11h às 20h.

#ocupacaohh

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